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Coisas quotidianas: o rio

Para algumas coisas a explicação não basta , e a revelação não significa a conclusão de um sentimento, e menos ainda da ideia de uma emoção. À mesa do almoço, depois de uma opinião exacerbada perguntaste-me porque é que gostava de ti. E eu não te soube responder porque na verdade cedi sob um turbilhão de imagens: o vinho em promoção do supermercado do bairro que é sempre bom quando bebido contigo, o barítono da tua voz a falar sobre as propriedades da luz e seus efeitos nas plantas da varanda, e este rio Arga à porta de casa com o seu presto con brio. Agora percebo que tipo de história posso contar quando convocado por estas imagens. - Mas não, não te iludas comigo, eu não posso explicar porque é que te amo.

Coisas quotidianas: a fatura

Sabes aquele pássaro de asa quebrada, assustado, que manténs aprisionado no sótão da tua consciência? Sabes aquela carta escrita, há anos, que nunca enviaste ao destinatário e sequer assinaste? Sabes aquele beijo que faria toda a diferença no enredo do antigo romance? Sabes a palavra maldita que nunca disseste e que te fere a garganta como uma espinha de aço inoxidável? Sabes, a fatura acabou de chegar.

Mediterrâneo: a travessia

Ela se chamava Esceth Ekos, tinha dezoito anos, vinha da Nigéria e estava morta com seu filho igualmente morto no ventre. Não era um ser humano, por isso nem Malta e nem a Itália a aceitaram junto com a sua outra gente, que gente também não era - são chamados de imigrantes. Um navio turco os salvou de um naufrágio no Mediterrâneo. A Europa dorme tranquila, continua sendo o paradigma na Defesa dos Direitos Humanos. Mas só para aqueles que ela considera humanos.

Mediterrâneo

Eu vi dormir o azul do Mediterrâneo na noite mais longa. E quando tudo era silêncio e desolação, o olho da lua surgiu da profundeza do meu sono com uma interrogação afiada. Eu tinha o Mediterrâneo e tinha a lua, e entre eles a coragem e o receio daqueles que atravessam, à noite, o mar real. Esse mesmo mar que a minha covardia poética não consegue cruzar. Eu tenho medo de não poder contar esta história.

Primeira carta à Susana: do país dos sonhos de pedra

Depois de dez anos , saio deste teu país feito de pedra e memória. E tudo o que tenho são sessenta euros na minha conta bancária e alguns livros, entre eles "O medo" de Al Berto, que esteve sempre ao meu lado durante a viagem. Apesar disto, ou por causa disto, nunca me senti tão rico na minha vida. É preciso que eu te diga agora duas coisas: és o enigma mais vertiginoso que trago tatuado no hemisfério interno do coração; e sim, eu também te amo.

Dos territórios

Não há um único território onde eu me sinta confortável. Talvez seja esta, e não outra, a condição que me faz reflectir sobre o estado das coisas. Depois de dez longos anos deixo Lisboa definitivamente, e este advérbio cabe aqui em todo o seu significado. Voltar a escrever noutra terra, de onde posso, daqui desta janela, observar o curso discreto do rio Arga, é para mim um privilégio recuperado. Algo que me reconduz à fantasia necessária que me ajuda a pensar que sim, que há algum lugar no mundo onde eu possa me sentir seguro. Fantasias servem para isso. Uns as compram nas agências de viagens que prometem sonhos no deserto ou num spa em Hammamet, outros as compram a um dealer na esquina escura mais próxima, ao preço de mercado, e outros à prazo em qualquer loja de centro comercial. A minha fantasia custa-me um pouco mais cara, e não me garante grandes coisas - mas não sei viver sem ela: a escrita. Por isto, dou-me a mim as boas-vindas, neste território movediço e inseguro que é a escri...

Voltar a escrever

Bom, tenho de admitir que nestes últimos meses afastou-se de mim a vontade de escrever. A dificuldade em entrar no meu antigo blogue, por causa da política da Globo.Com, ajudou-me a ficar fora da escrita, não fora das inquietações. Agora volto aos poucos, enquanto vou tentando deixar esta página como eu quero. Outra coisa, a mudança que vou fazer também ocupa a minha cabeça. Depois de dez anos deixo Lisboa definitivamente. Assim mesmo, com este advérbio terrível termino o post de hoje, enquanto organizo as ideias e mudo novamente a minha ortografia.