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Anotações II

Ler um autor francês traduzido na tua língua e encontrar a palavra "transverberación", usada para descrever os estados de euforia mística de uma Teresa que passou por aqui, e que julgou ter sido o seu coração mordido como se fosse uma fruta pela fome insaciável de um deus sem face. E eu, sem nenhum acessório místico, vejo, nessa cidade de pedra que rechaça o vegetal, as minhas palavras morrerem sob o sol do meio-dia como se fossem peixes sem esperanças. Turistas desavisados procuram a fachada da famosa universidade e eu quero fugir. Na esquina da "Calle Calderón de la Barca", uma parreira ancestral tenta abraçar, com alguma relutância, um prédio. Sigo adiante sem nenhuma ferida no coração e a algiberia plena de palavras desconexas, como se um poema ali estivesse a tilintar em cópias de moedas persas com o rosto triste de Tisafernes. O poema não vem, e eu quero somente respirar.

Caderno de anotações

A paisagem plana com o que resta de sol sobre Castilha e León. O sol é metade de uma gema. Duas linhas verticais e assimétricas cortam o horizonte: penso no poema que tenho de acabar. Os resultados das análises médicas não indicam nenhuma doença. O sol é um traço do que foi. Volto a pensar no poema inacabado. Conversamos sobre o meu pai, morto, e choro. O poema, esse, ainda vive na sua incerteza. Chegámos a Salamanca, eu feliz ao teu lado. Ainda não cheguei ao poema, e nem fui assaltado por ele. É assim, acontece.

Coisas quotidianas: o rio

Para algumas coisas a explicação não basta , e a revelação não significa a conclusão de um sentimento, e menos ainda da ideia de uma emoção. À mesa do almoço, depois de uma opinião exacerbada perguntaste-me porque é que gostava de ti. E eu não te soube responder porque na verdade cedi sob um turbilhão de imagens: o vinho em promoção do supermercado do bairro que é sempre bom quando bebido contigo, o barítono da tua voz a falar sobre as propriedades da luz e seus efeitos nas plantas da varanda, e este rio Arga à porta de casa com o seu presto con brio. Agora percebo que tipo de história posso contar quando convocado por estas imagens. - Mas não, não te iludas comigo, eu não posso explicar porque é que te amo.

Coisas quotidianas: a fatura

Sabes aquele pássaro de asa quebrada, assustado, que manténs aprisionado no sótão da tua consciência? Sabes aquela carta escrita, há anos, que nunca enviaste ao destinatário e sequer assinaste? Sabes aquele beijo que faria toda a diferença no enredo do antigo romance? Sabes a palavra maldita que nunca disseste e que te fere a garganta como uma espinha de aço inoxidável? Sabes, a fatura acabou de chegar.

Mediterrâneo: a travessia

Ela se chamava Esceth Ekos, tinha dezoito anos, vinha da Nigéria e estava morta com seu filho igualmente morto no ventre. Não era um ser humano, por isso nem Malta e nem a Itália a aceitaram junto com a sua outra gente, que gente também não era - são chamados de imigrantes. Um navio turco os salvou de um naufrágio no Mediterrâneo. A Europa dorme tranquila, continua sendo o paradigma na Defesa dos Direitos Humanos. Mas só para aqueles que ela considera humanos.

Mediterrâneo

Eu vi dormir o azul do Mediterrâneo na noite mais longa. E quando tudo era silêncio e desolação, o olho da lua surgiu da profundeza do meu sono com uma interrogação afiada. Eu tinha o Mediterrâneo e tinha a lua, e entre eles a coragem e o receio daqueles que atravessam, à noite, o mar real. Esse mesmo mar que a minha covardia poética não consegue cruzar. Eu tenho medo de não poder contar esta história.

Primeira carta à Susana: do país dos sonhos de pedra

Depois de dez anos , saio deste teu país feito de pedra e memória. E tudo o que tenho são sessenta euros na minha conta bancária e alguns livros, entre eles "O medo" de Al Berto, que esteve sempre ao meu lado durante a viagem. Apesar disto, ou por causa disto, nunca me senti tão rico na minha vida. É preciso que eu te diga agora duas coisas: és o enigma mais vertiginoso que trago tatuado no hemisfério interno do coração; e sim, eu também te amo.