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A cidade resistente

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Apesar do Poder desejar o contrário– e o Serviço de Estrangeiros e Fronteiras é somente um deles – Lisboa continua a resistir na sua vocação histórica de ser o que sempre foi: uma cidade aberta. “Oscilando como uma grande barca”, como dela disse Sophia. Às vezes é cruel no seu capitalismo periférico, arrogante e bacoco. Outras vezes, nela se tecem os laços de solidariedade que fazem gerar novos lisboetas, habitados por outros idiomas, enredos e lutas – e com histórias para contar, a quem tiver o tempo e a delicadeza para ouvir. Se é como dizem, a cidade dos desaparecidos, é também a cidade das antecipações. Lisboa, ante-sala de tudo, Lisboa alpendre do meu encontro com Sarajevo. - Esta é a Lisboa que me ensinaram a compartilhar!

O horrible, O horrible, most horrible!

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Na foto acima, Caio Lhennyson da Silva Costa dirijo-nos o seu olhar cheio de vida e de expectativas de quem acaba de perceber a extensão vasta do mundo. Tem 18 anos e pensa que, de tão grande que é o universo das coisas, seguramente haverá um sítio para ele. Um lugar onde possa usufruir a liberdade de ser feliz, um direito que tem, embora ainda não possa teorizar sobre isso. A foto acima é de alguém que foi cruelmente assassinado. Não há palavras para descrevê-lo. Não há lágrimas suficiente para chorá-lo. A sensação de impunidade que envolve os crimes no Brasil deixa-me com vontade de vomitar. A cada 36 horas, alguém é assassinado no Brasil por motivações homofóbicas. Os olhos castanhos do Caio, coagulados aqui na foto, clamam por justiça, embaraçam a minha liberdade e me deixam profundamente triste. E tenho tanto ódio, e queria tanto esbofetear alguns políticos no Brasil - e que me habitasse uma raiva que fosse capaz de mover as esferas... Mas não consigo fazer nada por agora, Caio....

Noite Transfigurada

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É fácil descrever: estou na sala, só, compenetrado a ouvir Noite Transfigurada de Schoenberg. É inverno. Na partitura, o diálogo entre o violino e o violoncelo. Nesse instante, ele entra silencioso e cruza a sala em diagonal, liga o aquecedor e depois vem na minha direção com uma manta. Agasalha-me e em seguida sai, deixando no rasto o esboço de um sorriso. Na composição, o homem e a mulher já transfigurados pela alegria seguem iluminados através do bosque. Eu dou comigo a pensar no quão simples é a felicidade. E da plenitude da minha consciência vem o gozo e a satisfação de saber que somos habitantes transitórios nestes momentos de paz. Então, mais uma vez na vida experimento a lucidez de quem, em regozijo, observa de um ponto fixo fora do universo, a alegria invadir um coração desatento.

Adagio un poco mosso

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O inverno entra pela janela como um dardo de luz, interceptando o curso da nossa conversação. E sobre o cenário de uma mesa parecida a uma terra devastada com restos calcinados de carne em pratos brancos com vestígios em verde e escarlate, sorvemos o último traço do vinho comprado na promoção de algum supermercado da Europa, enquanto que do telejornal nos chega a notícia da revolução no Egito. Então, uma nova espécie de indecência que antes não tinha este nome, surge - do fundo à superfície da nossa consciência - com a precisão de dezoito límpidas notas, trazendo-nos a noção de que usurpamos o privilégio de alguém. E ao estabelecermos um novo paradigma para a comparação das coisas que se movem abaixo do sol, concluímos, envergonhados, do caro que pode custar um vinho em promoção, e de quanto os nossos prazeres mesquinhos nada significam para aqueles que decidem desventrar a máquina do mundo, mostrando-nos a sordidez das suas entranhas.

Про Это, про Поэта и про Лилю Брик

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Про Это, про Поэта и про Лилю Брик. Ah, essa gente do Egito que reacende em nós o amor pela revolução e pela poesia. Se é verdade que não há mais distância física na terra, também não havera afastamentos de outra natureza. Por isso chamamos aqui Maiakóvsky e Lília, para dançar connosco na Praça do Mundo.

Ang laro ng buhay ni Juan

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Às vezes saímos do cinema com um soco no estômago, uma maneira inesperada de chorar e as nossas convicções humilhadas. E apressados, pensamos que o que queremos desta vida é um pouco de amor, e que nos mentem quaisquer sistemas que nos digam o contrário - reflectimos - enquanto cruzamos a rua sob a chuva de inverno. E vamos para casa com uma ideia inexplicável de protecção. Mas no dia seguinte pela manhã, os nossos diplomas e carreiras, nossas três refeições ao dia e até as nossas vaidades mais secretas não nos valem quando, inesperadamente, no espelho da casa de banho, um estranho nos mira do outro lado do reflexo e nos adverte, implacável: - Neste mundo de ignomínia, não tens vergonha dos teus privilégios?

Insônia

Um sujeito pensa em voltar a escrever e a primeira coisa que lhe surge, assim sem mais nem menos, não é uma ideia, mas uma insônia - uma dessas grandes que fazem os móveis da casa crescerem à noite, e dos livros, aparentemente quietos nas suas estantes, surgem vozes, algumas sufocadas. - e eu só queria dormir um pouco.