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Solidão em três tempos

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Sob o céu da cidade com dois nomes um homem caminha sozinho rumo à casa. Anestesiado, não vê a encenação dramática de nuvens convertidas em chamas, de pássaros sem direcção precisa e da velha em cadeira de rodas que parece ter sido abandonada à sua sorte. O homem caminha “para o nada”, segundo o seu próprio juízo. Em casa, à mesa, nunca tem companhia. A velha de aspecto frágil, desamparada, pensa nas maldades adolescentes que cometeu antes da guerra. E uma espécie de brilho satânico desenha na sua face devastada um sorriso em forma de gozo que a faz tremer de satisfação: “A minha irmã era uma boba romântica que lia muita poesia; e gostava tanto daquele canário. Mas eu não tive pena, matei o bicho.” E como por magia, emerge da sua própria sombra outra mulher, mais nova, que começa a empurrar a cadeira. Maria veio da Bolívia com uma promessa de futuro. Rapidamente aprendeu que as palavras “promessa” e “futuro” transportavam a mesma densidade de enganos que havia conhecid...

Cейчас я могу говорить // Agora posso falar!

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                                                        "Cейчас я могу говорить." Agora posso falar! A primeira vez que vi este filme parei de respirar logo na primeira cena. Um menino liga a televisão. Dentro dela, um outro menino (a caminho de se tornar um homem) submete-se a um tratamento para curar-se de uma gagueira. Uma mulher, cientista xamânica, pousa-lhe as mãos em cima, e em pouco mais que um minuto o jovem estudante de um instituto de Kharkov já pode dizer o libertador e poético "agora posso falar". O que vem depois é um longo poema cinematográfico esculpido com a matéria mais frágil que há, o tempo. Assumo também que neste grande (enorme, como diz meu amigo Victor Hugo) poema visual que se chama " O espelho ", está contida a minha história mais íntima: as ausências do pai, a mãe que empenha a única jóia de família...

Aula de geografia: dos rios

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É verdade que o Tejo e o Douro nascem em Espanha, dizia eu ao tradutor árabe em Toledo. Mas é em Portugal onde eles buscam e encontram todo o seu esplendor.

Kind of Blue

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Kind of Blue     Esta música sempre vai me lembrar Tunis. O tempo que se dilatava entre a Place de Barcelone e a Rue de Palestine. A espera. O café que arrefecia sem tocar nos meus lábios. E uma mensagem ligeira, quase descuidada, no telemóvel, cancelando o encontro. Era então quando as horas pesavam sobre os meus ombros.

O branco já tinha rebentado

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o branco já tinha rebentado e à volta deles existia apenas uma pena caída na calçada parecia uma floresta morta estavam todos ajoelhados à sua volta os crentes os descrentes  os miseráveis a derrota era a fogueira daquele pássaro antes tinham sido as sombras a fazê-lo tombar em todas as valas ouviam-se as mesmas notas musicais num ritmo que abrandava a cada sinal sem tempo Madalena Ávila

2012 DA14

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2012 DA14 No meio do caminho, havia uma pedra... Carlos  Drummond de Andrade Nem é preciso tantas toneladas para pôr fim à nossa investigação da condição humana sobre a ténue face do planeta. Cento e cinquenta mil toneladas combinando trajectória, tempo e rotação, como num poema previamente ensaiado, nos dirão em que lado da face receberemos a bofetada fatal, aquela que reduzirá a nada a poesia, a política e o entendimento antropológico da vida.  À esquerda de nosso rosto perecerá a orquídea, o verso e a álgebra. À direita, as noções sobre Deus, a macroeconomia e a cobiça. - Seguir-se-á  uma longa noite invernal, opaca e silenciosa depois do último gemido. E quiçá, numa manhã inesperada de Abril,  retomaremos a nossa caminhada, mais leves e sem memória.

Sud Express

Embarcámos em Vitória-Gasteiz e não sabíamos nada um do outro. Como sempre, armei-me de silêncio e de um livro para garantir uma viagem tranquila. Por timidez (?) falo cada vez menos com estranhos, mas com ele não foi assim. Com somente seis palavras em castelhano já havíamos percebido que éramos brasileiros. Deixei-lhe que escolhesse a liteira . Ele me disse que qualquer uma estava bem. Instalei-me e já me preparava para continuar com a leitura do livro Os demónios, de Dostoiévsky, quando inesperadamente sem se aperceber que eu tinha o livro nas mãos, ele começou a me contar a sua história utilizando o idioma de Riobaldo. Então parei o que ia fazer e ouvi, com a mesma atenção que pretendia dedicar à história dos revolucionários russos do século XIX, a narração daquele rapaz saído do interior das Minas Gerais para “ganhá mundo” e encontrar um lugar só seu no meio de tanta indelicadeza globalizada. Dizia-me: “Eu nem sabia o que era passaporte. Tinha umas trampa pra ir pros Estado...