Mensagens

Artur Żmijewski: o olhar

http://artmuseum.pl/en/filmoteka/praca/zmijewski-artur-oko-za-oko Ao contrário do que podemos pensar, a beleza não é uma declaração da forma ou do conteúdo, mas o momento da manifestação da surpresa, a veemência do inesperado. Em outras palavras, beleza é maravilhamento.

Solidão em três tempos

Imagem
Sob o céu da cidade com dois nomes um homem caminha sozinho rumo à casa. Anestesiado, não vê a encenação dramática de nuvens convertidas em chamas, de pássaros sem direcção precisa e da velha em cadeira de rodas que parece ter sido abandonada à sua sorte. O homem caminha “para o nada”, segundo o seu próprio juízo. Em casa, à mesa, nunca tem companhia. A velha de aspecto frágil, desamparada, pensa nas maldades adolescentes que cometeu antes da guerra. E uma espécie de brilho satânico desenha na sua face devastada um sorriso em forma de gozo que a faz tremer de satisfação: “A minha irmã era uma boba romântica que lia muita poesia; e gostava tanto daquele canário. Mas eu não tive pena, matei o bicho.” E como por magia, emerge da sua própria sombra outra mulher, mais nova, que começa a empurrar a cadeira. Maria veio da Bolívia com uma promessa de futuro. Rapidamente aprendeu que as palavras “promessa” e “futuro” transportavam a mesma densidade de enganos que havia conhecid...

Cейчас я могу говорить // Agora posso falar!

Imagem
                                                        "Cейчас я могу говорить." Agora posso falar! A primeira vez que vi este filme parei de respirar logo na primeira cena. Um menino liga a televisão. Dentro dela, um outro menino (a caminho de se tornar um homem) submete-se a um tratamento para curar-se de uma gagueira. Uma mulher, cientista xamânica, pousa-lhe as mãos em cima, e em pouco mais que um minuto o jovem estudante de um instituto de Kharkov já pode dizer o libertador e poético "agora posso falar". O que vem depois é um longo poema cinematográfico esculpido com a matéria mais frágil que há, o tempo. Assumo também que neste grande (enorme, como diz meu amigo Victor Hugo) poema visual que se chama " O espelho ", está contida a minha história mais íntima: as ausências do pai, a mãe que empenha a única jóia de família...

Aula de geografia: dos rios

Imagem
É verdade que o Tejo e o Douro nascem em Espanha, dizia eu ao tradutor árabe em Toledo. Mas é em Portugal onde eles buscam e encontram todo o seu esplendor.

Kind of Blue

Imagem
Kind of Blue     Esta música sempre vai me lembrar Tunis. O tempo que se dilatava entre a Place de Barcelone e a Rue de Palestine. A espera. O café que arrefecia sem tocar nos meus lábios. E uma mensagem ligeira, quase descuidada, no telemóvel, cancelando o encontro. Era então quando as horas pesavam sobre os meus ombros.

O branco já tinha rebentado

Imagem
o branco já tinha rebentado e à volta deles existia apenas uma pena caída na calçada parecia uma floresta morta estavam todos ajoelhados à sua volta os crentes os descrentes  os miseráveis a derrota era a fogueira daquele pássaro antes tinham sido as sombras a fazê-lo tombar em todas as valas ouviam-se as mesmas notas musicais num ritmo que abrandava a cada sinal sem tempo Madalena Ávila

2012 DA14

Imagem
2012 DA14 No meio do caminho, havia uma pedra... Carlos  Drummond de Andrade Nem é preciso tantas toneladas para pôr fim à nossa investigação da condição humana sobre a ténue face do planeta. Cento e cinquenta mil toneladas combinando trajectória, tempo e rotação, como num poema previamente ensaiado, nos dirão em que lado da face receberemos a bofetada fatal, aquela que reduzirá a nada a poesia, a política e o entendimento antropológico da vida.  À esquerda de nosso rosto perecerá a orquídea, o verso e a álgebra. À direita, as noções sobre Deus, a macroeconomia e a cobiça. - Seguir-se-á  uma longa noite invernal, opaca e silenciosa depois do último gemido. E quiçá, numa manhã inesperada de Abril,  retomaremos a nossa caminhada, mais leves e sem memória.