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lletraferit

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...Sobirà   lletraferit , li és atribuïda la   cantiga d’amigo més antiga que es coneix. Gran Encicloplèdia Catalana. Lisboa, Outono de 2005. Simplesmente não conseguia terminar a minha investigação. E ao invés de trabalhar com rigor naquilo que me pedia o estudo, a minha pulsão fugia para a poesia. Escrevia-te convulsivamente poemas – eu era um Etna em erupção. E em baladas fingidas, simulava a atmosfera perdida dos anos 80, me afogava em vodca barata e dançava como um ídolo pagão. Por vezes amanhecia na história particular de algum desconhecido, conversando numa língua estrangeira. E da cama, a minha mirada podia alcançar a outra margem do rio ou um telhado que envelhecia. Não me importava dizer adeus a um estranho. Vestia-me, estava na minha cidade e caminhava pelas ruas a perguntar-me “porque não na tua história?" Passavam os dias e os textos me ardiam pelo corpo como tatuagens vivas, amarrotados nos fundos dos bolsos. “Digo-te uma coisa, se eu o en...

How are things in Glocca Morra?

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How Are Things in Glocca Morra? Wynton Marsalis, Standard Time Vol. 3: The Resolution Of Romance, faixa 11.                                                                                         É bom saber que segues cartografando o mundo com os instrumentos que fazem de ti uma espécie de mago. É verdade que o plátano, a pedra, as águas e os pássaros que sempre estiveram ali, erigidos como monumentos à minha frente desde sempre, só os vi com interesse quando pronunciaste: “plátano, pedra, águas e pássaros”. É bom saber que esta terra qu...

Revisitada

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Na Pastelaria Cister, em Lisboa, 8 de Novembro de 2013   Este é um daqueles momentos em que parece que sempre tem sido assim: o pequeno-almoço na pastelaria do bairro, como se não houvesse interrupção entre 2009 e 2013. Revisitar Lisboa é sempre uma experiência gratificante. E devo admitir que cheia de sentimentos contraditórios também. Aos primeiros momentos de euforia do reencontro, segue-se uma leve sensação de angústia por histórias que não se concretizaram, e uma melancolia de ante-sala, de espera onde o passar lento das horas intensifica secretamente o germe da tristeza que trazemos plantado no mais íntimo. Lisboa segue sendo o coração enrugado do pêssego, fruto do qual ainda se alimenta a minha escassa poesia. Já sentia saudades da discrição portuguesa, que desconfio ser uma espécie de timidez misto de formalidade, e do eterno receio de ser provinciano na Praça do Mundo. Gosto do meu bairro que tem nome de Bairro, destinado desde a sua fundação a...

Artur Żmijewski: o olhar

http://artmuseum.pl/en/filmoteka/praca/zmijewski-artur-oko-za-oko Ao contrário do que podemos pensar, a beleza não é uma declaração da forma ou do conteúdo, mas o momento da manifestação da surpresa, a veemência do inesperado. Em outras palavras, beleza é maravilhamento.

Solidão em três tempos

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Sob o céu da cidade com dois nomes um homem caminha sozinho rumo à casa. Anestesiado, não vê a encenação dramática de nuvens convertidas em chamas, de pássaros sem direcção precisa e da velha em cadeira de rodas que parece ter sido abandonada à sua sorte. O homem caminha “para o nada”, segundo o seu próprio juízo. Em casa, à mesa, nunca tem companhia. A velha de aspecto frágil, desamparada, pensa nas maldades adolescentes que cometeu antes da guerra. E uma espécie de brilho satânico desenha na sua face devastada um sorriso em forma de gozo que a faz tremer de satisfação: “A minha irmã era uma boba romântica que lia muita poesia; e gostava tanto daquele canário. Mas eu não tive pena, matei o bicho.” E como por magia, emerge da sua própria sombra outra mulher, mais nova, que começa a empurrar a cadeira. Maria veio da Bolívia com uma promessa de futuro. Rapidamente aprendeu que as palavras “promessa” e “futuro” transportavam a mesma densidade de enganos que havia conhecid...

Cейчас я могу говорить // Agora posso falar!

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                                                        "Cейчас я могу говорить." Agora posso falar! A primeira vez que vi este filme parei de respirar logo na primeira cena. Um menino liga a televisão. Dentro dela, um outro menino (a caminho de se tornar um homem) submete-se a um tratamento para curar-se de uma gagueira. Uma mulher, cientista xamânica, pousa-lhe as mãos em cima, e em pouco mais que um minuto o jovem estudante de um instituto de Kharkov já pode dizer o libertador e poético "agora posso falar". O que vem depois é um longo poema cinematográfico esculpido com a matéria mais frágil que há, o tempo. Assumo também que neste grande (enorme, como diz meu amigo Victor Hugo) poema visual que se chama " O espelho ", está contida a minha história mais íntima: as ausências do pai, a mãe que empenha a única jóia de família...

Aula de geografia: dos rios

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É verdade que o Tejo e o Douro nascem em Espanha, dizia eu ao tradutor árabe em Toledo. Mas é em Portugal onde eles buscam e encontram todo o seu esplendor.