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O meu primeiro beijo

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O meu primeiro beijo foi: com Omar a infância era de ónix, com Felipe foi de brincadeira, com Kátia de verdade, com Paula às amendoeiras em flor, com Débora havia música, com Maria pedi permissão, com Jorge adeus à adolescência, com Cláudio Beirute entrou na minha vida, com Laura foi em sonho, com Gilberto numa discussão sobre Lacan, com Fabiano o intervalo mais lindo, com Fábio à porta do táxi, com Domingos sob os arcos, com João era já outro continente, com Isaiah estação de Stalingrad acesso rue de l'Aqueduc , com Fréd numa sessão de Godard, com Madalena cavalgávamos o Hipogrifo, com Henrique em horas clandestinas, com Paulo suspenso numa aldeia beira-mar, com Pedro no meu quarto medieval, com Ridha ouvia-se o rumor da rue de Palestine , com Mohamed os deslizes da língua, com Ibrahim sob as estrelas, com Manel era o azul de Lisboa, com João Paulo de manhã na pastelaria e com Miguel é todos os dias.

Baruch de Espinoza

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“Depois da excomunhão, Baruch de Espinoza encontrou trabalho polindo lentes para lunetas e microscópios, e dizem que ganhou grande reputação neste ofício...” Era moreno entre brancos, e sendo judeu era quase gentio entre os seus. Os pais tinham nascido em Portugal mas ele não, ele pertencia à cidade dos canais, à água e ao porto que lhe abria ao mundo. Nas noites de lua cheia, eu que nunca estive em Amsterdão, sou capaz de perceber os passos tranquilos de Baruch pela Visserplein fazendo ecoar, na sua voz mas íntima, a frase “Se eles não entendem nada, paciência.” Há tardes, quando o rio Arga subitamente muda a sua cor, me surpreendo a pensar nas obstinadas mãos de Espinoza, que mergulhadas no seu ofício de iluminar o opaco, vão aos poucos abrindo caminho para si próprio buscando, ou tecendo, uma imagem mais coerente da realidade. Uma vez vi, publicada num jornal português, uma fotografia das mãos do meu amigo Victor Hugo em acção no seu ofício. Como era Lisboa, e o so...

lletraferit

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...Sobirà   lletraferit , li és atribuïda la   cantiga d’amigo més antiga que es coneix. Gran Encicloplèdia Catalana. Lisboa, Outono de 2005. Simplesmente não conseguia terminar a minha investigação. E ao invés de trabalhar com rigor naquilo que me pedia o estudo, a minha pulsão fugia para a poesia. Escrevia-te convulsivamente poemas – eu era um Etna em erupção. E em baladas fingidas, simulava a atmosfera perdida dos anos 80, me afogava em vodca barata e dançava como um ídolo pagão. Por vezes amanhecia na história particular de algum desconhecido, conversando numa língua estrangeira. E da cama, a minha mirada podia alcançar a outra margem do rio ou um telhado que envelhecia. Não me importava dizer adeus a um estranho. Vestia-me, estava na minha cidade e caminhava pelas ruas a perguntar-me “porque não na tua história?" Passavam os dias e os textos me ardiam pelo corpo como tatuagens vivas, amarrotados nos fundos dos bolsos. “Digo-te uma coisa, se eu o en...

How are things in Glocca Morra?

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How Are Things in Glocca Morra? Wynton Marsalis, Standard Time Vol. 3: The Resolution Of Romance, faixa 11.                                                                                         É bom saber que segues cartografando o mundo com os instrumentos que fazem de ti uma espécie de mago. É verdade que o plátano, a pedra, as águas e os pássaros que sempre estiveram ali, erigidos como monumentos à minha frente desde sempre, só os vi com interesse quando pronunciaste: “plátano, pedra, águas e pássaros”. É bom saber que esta terra qu...

Revisitada

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Na Pastelaria Cister, em Lisboa, 8 de Novembro de 2013   Este é um daqueles momentos em que parece que sempre tem sido assim: o pequeno-almoço na pastelaria do bairro, como se não houvesse interrupção entre 2009 e 2013. Revisitar Lisboa é sempre uma experiência gratificante. E devo admitir que cheia de sentimentos contraditórios também. Aos primeiros momentos de euforia do reencontro, segue-se uma leve sensação de angústia por histórias que não se concretizaram, e uma melancolia de ante-sala, de espera onde o passar lento das horas intensifica secretamente o germe da tristeza que trazemos plantado no mais íntimo. Lisboa segue sendo o coração enrugado do pêssego, fruto do qual ainda se alimenta a minha escassa poesia. Já sentia saudades da discrição portuguesa, que desconfio ser uma espécie de timidez misto de formalidade, e do eterno receio de ser provinciano na Praça do Mundo. Gosto do meu bairro que tem nome de Bairro, destinado desde a sua fundação a...

Artur Żmijewski: o olhar

http://artmuseum.pl/en/filmoteka/praca/zmijewski-artur-oko-za-oko Ao contrário do que podemos pensar, a beleza não é uma declaração da forma ou do conteúdo, mas o momento da manifestação da surpresa, a veemência do inesperado. Em outras palavras, beleza é maravilhamento.

Solidão em três tempos

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Sob o céu da cidade com dois nomes um homem caminha sozinho rumo à casa. Anestesiado, não vê a encenação dramática de nuvens convertidas em chamas, de pássaros sem direcção precisa e da velha em cadeira de rodas que parece ter sido abandonada à sua sorte. O homem caminha “para o nada”, segundo o seu próprio juízo. Em casa, à mesa, nunca tem companhia. A velha de aspecto frágil, desamparada, pensa nas maldades adolescentes que cometeu antes da guerra. E uma espécie de brilho satânico desenha na sua face devastada um sorriso em forma de gozo que a faz tremer de satisfação: “A minha irmã era uma boba romântica que lia muita poesia; e gostava tanto daquele canário. Mas eu não tive pena, matei o bicho.” E como por magia, emerge da sua própria sombra outra mulher, mais nova, que começa a empurrar a cadeira. Maria veio da Bolívia com uma promessa de futuro. Rapidamente aprendeu que as palavras “promessa” e “futuro” transportavam a mesma densidade de enganos que havia conhecid...