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Lapidum natura restat, hoc est praecipua morum insania.

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“ Lapidum natura restat, hoc est praecipua morum insania …” Gaius Plinius Secundos. “ Ancestral l â mina de obsidiana ” , o primeiro verso que te vem à cabe ç a nesta indecisa tarde em que caminhas distra í do. Outono à porta, a vida segue o seu curso com a exibi çã o televisiva de distantes e pasteurizadas trag é dias com nomes ex ó ticos, sempre à justa medida para n ã o perturbar a tua consci ê ncia conformista. “ Ancestral l â mina de obsidiana ” , verso sem continua çã o, passaporte para fingires que participas na eternidade matem á tica das coisas, desde a palavra ainda abismo ao baile silencioso das esferas. “ Ancestral l â mina de obsidiana ” , senten ç a e aviso:                                                                                como quando ...

Esfinge

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Não há perguntas. Selvagem o silencio cresce, difícil.                         De “Rosácea”, 1986. Orides Fontela

Quase dezessete

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“Vous êtes amoureux. Loué jusqu’au mois d’août.” A. Rimbaud Ali me encontro, aos dezesseis anos, quase dezessete, prisioneiro de uma felicidade aprazada, desafiante, sem saber que a mirada carregada de futuro que captava aquela câmera, chegaria certeira ao presente do meu coração.

Naharros de Valdunciel (Salamanca)

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“Este blogue é mais forte do que eu”, talvez assim começasse este texto Clarice Lispector se vivesse, como nós, na era digital. Na verdade nem sei porque ainda mantenho o Finisterra. Talvez por esperança de um dia voltar a ele como fazia nos idos entre 2004 e 2007. Naquela época, este blogue era o porto mais seguro para alguém que vivia à deriva nas emoções de uma vida entre Lisboa e Túnis. Já tentei recomeçá-lo várias vezes e nunca o consegui de todo. Esta será outra tentativa, um pouco por conselho de amigos e alunos, outro tanto porque será um ano inteiro de uma viagem que se propõe à volta do mundo. A viagem é sonho do Miguel que decidiu compartilhá-la comigo. Admito publicamente que tenho receio de me afastar tanto tempo de casa. A idade, e não o casamento, foi fazendo de mim o homem caseiro em que me tornei. A minha grande odisseia quotidiana é ir ao café perto da minha casa, ler o jornal e falar com poucos. Eu não era assim, mas me tenho simpatia. E uma viagem ...

O meu primeiro beijo

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O meu primeiro beijo foi: com Omar a infância era de ónix, com Felipe foi de brincadeira, com Kátia de verdade, com Paula às amendoeiras em flor, com Débora havia música, com Maria pedi permissão, com Jorge adeus à adolescência, com Cláudio Beirute entrou na minha vida, com Laura foi em sonho, com Gilberto numa discussão sobre Lacan, com Fabiano o intervalo mais lindo, com Fábio à porta do táxi, com Domingos sob os arcos, com João era já outro continente, com Isaiah estação de Stalingrad acesso rue de l'Aqueduc , com Fréd numa sessão de Godard, com Madalena cavalgávamos o Hipogrifo, com Henrique em horas clandestinas, com Paulo suspenso numa aldeia beira-mar, com Pedro no meu quarto medieval, com Ridha ouvia-se o rumor da rue de Palestine , com Mohamed os deslizes da língua, com Ibrahim sob as estrelas, com Manel era o azul de Lisboa, com João Paulo de manhã na pastelaria e com Miguel é todos os dias.

Baruch de Espinoza

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“Depois da excomunhão, Baruch de Espinoza encontrou trabalho polindo lentes para lunetas e microscópios, e dizem que ganhou grande reputação neste ofício...” Era moreno entre brancos, e sendo judeu era quase gentio entre os seus. Os pais tinham nascido em Portugal mas ele não, ele pertencia à cidade dos canais, à água e ao porto que lhe abria ao mundo. Nas noites de lua cheia, eu que nunca estive em Amsterdão, sou capaz de perceber os passos tranquilos de Baruch pela Visserplein fazendo ecoar, na sua voz mas íntima, a frase “Se eles não entendem nada, paciência.” Há tardes, quando o rio Arga subitamente muda a sua cor, me surpreendo a pensar nas obstinadas mãos de Espinoza, que mergulhadas no seu ofício de iluminar o opaco, vão aos poucos abrindo caminho para si próprio buscando, ou tecendo, uma imagem mais coerente da realidade. Uma vez vi, publicada num jornal português, uma fotografia das mãos do meu amigo Victor Hugo em acção no seu ofício. Como era Lisboa, e o so...

lletraferit

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...Sobirà   lletraferit , li és atribuïda la   cantiga d’amigo més antiga que es coneix. Gran Encicloplèdia Catalana. Lisboa, Outono de 2005. Simplesmente não conseguia terminar a minha investigação. E ao invés de trabalhar com rigor naquilo que me pedia o estudo, a minha pulsão fugia para a poesia. Escrevia-te convulsivamente poemas – eu era um Etna em erupção. E em baladas fingidas, simulava a atmosfera perdida dos anos 80, me afogava em vodca barata e dançava como um ídolo pagão. Por vezes amanhecia na história particular de algum desconhecido, conversando numa língua estrangeira. E da cama, a minha mirada podia alcançar a outra margem do rio ou um telhado que envelhecia. Não me importava dizer adeus a um estranho. Vestia-me, estava na minha cidade e caminhava pelas ruas a perguntar-me “porque não na tua história?" Passavam os dias e os textos me ardiam pelo corpo como tatuagens vivas, amarrotados nos fundos dos bolsos. “Digo-te uma coisa, se eu o en...