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«Troveremo i resti di Caravaggio»

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Na noite do dia 29 de Maio de 1606 Caravaggio matava (por acidente?) o jovem Ranuccio Tomassoni depois de uma discussão por motivo banal. Não era um homem fácil e já se tinha envolvido em outras confusões antes. Desta vez não lhe valeram os seus protectores e Caravaggio, procurado pela polícia, teve de abandonar definitivamente a sua amada Roma. Mais de 400 anos depois, e por motivos outros, uma equipa de investigadores ainda busca Caravaggio, ou o que dele resta nuns controversos ossos encontrados no antigo cemitério de Porto Ercole na Toscana. Michelangelo Merisi, detto Caravaggio, nunca pertenceu ao século XVII, ele é criação do nosso século XX, essa máquina de incoerência a todo o vapor, essa usina nuclear plantada entre as flores do nosso jardim. Sentimos muito, Caravaggio, mas ainda por alguns séculos mais iremos estar ao teu encalço. A ferida que plantaste em nosso entendimento segue aberta como uma boca que indaga, e que quer respostas.

מזל טוב

Subiu no autocarro em LLeida, às 05h00 de uma tarde de Inverno. Vestia com simplicidade elegância. Era alto, magro e usava óculos de armação leve. Sentou-se no banco à minha frente. Meia hora depois, o seu telefone tocou. Uma tal de Sandra chamava-lhe e ele, falando num castelhano com sotaque, agradeceu a chamada e disse-lhe que se ia embora para a França, que lá tinha amigos e um possível emprego. Desligou, não sem antes dar o seu número francês para a rapariga do outro lado da chamada. Pensei: deve ser brasileiro, libanês ou turco. Não era. Na primeira parada, desceu e fumou um cigarro. Voltou ao autocarro e quando este já partia, tirou uma sandes da bolsa e começou a comer. Mordia como quem morde a raiz das coisas. Pensei: de todos nós aqui, ele é talvez o único que vai, nós de alguma maneira voltamos para as nossas casas, este homem não, está indo, em frente, com a sua mala, sozinho em direcção a França. Adormeci. Tempo depois o seu telefone tocou novamente, e desta vez ele falou ...

En Lixboa sobre lo mar, 2010

Não gosto de fazer promessas a mim mesmo. Sou por de mais sonhador e, salto facilmente a raia do bom senso, que é aquele espaço do realizável. Mas também gosto de sonhar o impossível, e correr atrás dele, sobretudo politicamente falando. Não gosto de datas religiosamente estantardizadas tipo Natal, Yon Kippur e o Ramadão... mas admiro as pessoas que as tenham e as observam. As minhas datas são todos os dias, e portanto, desejar o futuro passa a ser para mim um exercício do presente, com todas as implicações que esta atitude possa ter, como por exemplo, não ser possível realizar, ou realizá-lo para além das minhas espectativas. Começar o ano assim, com a consciência de que tem sido assim. 2009/2010/2011 é já e agora.

Manuel Bandeira

Em uma tarde perdida num qualquer domingo de 1998, na minha casa no centro do Rio de Janeiro, eu assistia, meio dopado pelo terrível efeito que os domingos têm na minha vida, a um documentário pela televisão. Nele aparecia Manuel Bandeira a caminhar, em 1959, pela mesmíssima paisagem que eu via da minha janela. Lembro-me da sensação estranha que eu tive no momento, como se confundisse os tempos do mundo, e 1959 fosse 1998 ou vice-versa. O prédio onde eu vivia aparece com a integridade física e moral do art-decô que tanto marcou a identidade arquitectónica carioca dos anos 30 e 40. O filme é do Joaquim Pedro de Andrade e retrata um dia na vida de Manuel Bandeira. Eu posso estar a sonhar agora, mas acho que naquela tarde de domingo, confundindo realidade e fantasia, eu desci até a esquina para ver Manuel passar. Mas era domingo, numa tarde para ser de todo esquecida, e Manuel, esse, já não existia mais. É com o sonho que vejo novamente esse pequeno documentário, que me faz reencontrar a ...

Poesia e política

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Madrugada, a cabeça às voltas com um pensamento atormentado pela insegurança de não saber como começar um texto político. E no entanto, o amor está lá dentro deste texto que ainda não existe, como o sonho habita o interior de uma pedra ou o canto que ainda dorme nas entranhas do galo. Pensar em poesia e política é isso mesmo, invocar a Ferreira Gullar.

Baudelaire

L'examen de minuit La pendule, sonnant minuit, Ironiquement nous engage A nous rappeler quel usage Nous fîmes du jour qui s'enfuit : - Aujourd'hui, date fatidique, Vendredi, treize, nous avons, Malgré tout ce que nous savons, Mené le train d'un hérétique ; Nous avons blasphémé Jésus, Des Dieux le plus incontestable ! Comme un parasite à la table De quelque monstrueux Crésus, Nous avons, pour plaire à la brute, Digne vassale des Démons, Insulté ce que nous aimons Et flatté ce qui nous rebute ; Contristé, servile bourreau Le faible qu'à tort on méprise ; Salué l'énorme Bêtise, La Bêtise au front de taureau ; Baisé la stupide Matière Avec grande dévotion, Et de la putréfaction Béni la blafarde lumière ; Enfin, nous avons, pour noyer Le vertige dans le délire, Nous, prêtre orgueilleux de la Lyre, Dont la gloire est de déployer L'ivresse des choses funèbres, Bu sans soif et mangé sans faim !... - Vite soufflons la lampe, afin De nous cacher dans les ténèbres ! **...

Cioran

"Un étranger pour la police, pour Dieu et pour moi-même"