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Boys don't cry?

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Agora estou em 1982 ou 1983 , na minha casa no Rio de Janeiro. Neste momento me preparo para sair. No rádio ouço esta música e me sinto tão feliz com a possibilidade da noite que engendra silenciosamente o meu futuro. O mundo era outro, eu era outro. Por que é que não há uma máquina para viajar no tempo agora? Assim eu ia direto ao meu encontro para me dizer, de maneira rotunda: " vai, meu amigo, nunca percas a oportunidade de cometer erros. São eles que acabam nos levando para os sítios mais interessantes da condição humana." Eu acho que eu ia gostar de ouvir isto de mim - e com certeza eu ia me convidar para tomar uma cerveja, e depois quem sabe...?

Como se faz um poema?

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Sempre me trataram muito bem os homens que me tiveram. Se algum antagonismo houve, nas minhas histórias passadas, a incompreensão surgiu da minha parte, assim sem querer, involuntária como uma flor do deserto. Sabes o que se passa comigo? Às vezes sou atropelado por um sonho, e é tão forte o choque que me desperta para a realidade. Não é algo de que me faça arrepender da minha maneira de ser. Tampouco seja uma coisa da qual me orgulho. Sei lá, eu queria fazer um poema, e surgiu isso. Como é mesmo que se faz um poema?

15-O Grupo de Migraciones, Pamplona-Iruña

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Cartografia do outono

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Essa espécie de semente que decide brotar no outono, eu. Com os olhos mais abertos do que nunca, avalio com meticulosa precisão que a empregada de balcão da pastelaria, o anónimo que me trespassa com o olhar e a vendedora de jornal são os pilares sobre os quais se sustenta toda a arquitetura do mundo, e cartografam para mim, o ponto onde me encontro neste universo a que chamamos de vida.

E esse pouco é tanto!

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‎"Há-de flutuar uma cidade no crepúsculo da vida" dizia Al Berto. Eu sei tu sabes, o mundo é esta merda que vemos todos os dias no ecrán azul "on-line" que nos entra pela retina adentro. Ao fim e ao cabo, meu amigo, somos nós que teremos de meter as mãos na latrina e tirar de lá a beleza desperdiçada pelo poder. Pouco pode a poesia... E esse pouco é tanto!

Tammuz

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Os historiadores discutem , ainda hoje, se eram de tijolos ou pedras, as bases que sustentavam os preciosos jardins mandados construir por Nabucodonosor II naquela Babilónia que via, reflectida no Eufrates, o esplendor da sua glória. A pouca documentação existente serve para ocultar a história viva que se faz no silêncio, no dia-a-dia. Nada sabem os historiadores da morte do jovem Binah que não falava o acádio, e era chamado de “o louco” pelos capatazes do rei; à noite, depois dos trabalhos forçados, ele chorava a falta da sua Jerusalém natal. Nada sabem sobre Tammuz, o jardineiro do rei que sonhava, na sua cabeça acordada, com a mescla de cores, formas e aromas das plantas que surpreenderiam não somente a vaidade do rei, mas maravilhariam a posteridade. Alguma coisa sabem do sangue, das guerras de invasão e dos fraticídios. Mas nunca saberão da amizade que existia entre o jardineiro Tammuz e o escravo Binah, e de como a morte deste plantou uma silenciosa pedra no húmido coração do ja...

A cidade resistente

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Apesar do Poder desejar o contrário– e o Serviço de Estrangeiros e Fronteiras é somente um deles – Lisboa continua a resistir na sua vocação histórica de ser o que sempre foi: uma cidade aberta. “Oscilando como uma grande barca”, como dela disse Sophia. Às vezes é cruel no seu capitalismo periférico, arrogante e bacoco. Outras vezes, nela se tecem os laços de solidariedade que fazem gerar novos lisboetas, habitados por outros idiomas, enredos e lutas – e com histórias para contar, a quem tiver o tempo e a delicadeza para ouvir. Se é como dizem, a cidade dos desaparecidos, é também a cidade das antecipações. Lisboa, ante-sala de tudo, Lisboa alpendre do meu encontro com Sarajevo. - Esta é a Lisboa que me ensinaram a compartilhar!