Mensagens

Kind of Blue

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Kind of Blue     Esta música sempre vai me lembrar Tunis. O tempo que se dilatava entre a Place de Barcelone e a Rue de Palestine. A espera. O café que arrefecia sem tocar nos meus lábios. E uma mensagem ligeira, quase descuidada, no telemóvel, cancelando o encontro. Era então quando as horas pesavam sobre os meus ombros.

O branco já tinha rebentado

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o branco já tinha rebentado e à volta deles existia apenas uma pena caída na calçada parecia uma floresta morta estavam todos ajoelhados à sua volta os crentes os descrentes  os miseráveis a derrota era a fogueira daquele pássaro antes tinham sido as sombras a fazê-lo tombar em todas as valas ouviam-se as mesmas notas musicais num ritmo que abrandava a cada sinal sem tempo Madalena Ávila

2012 DA14

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2012 DA14 No meio do caminho, havia uma pedra... Carlos  Drummond de Andrade Nem é preciso tantas toneladas para pôr fim à nossa investigação da condição humana sobre a ténue face do planeta. Cento e cinquenta mil toneladas combinando trajectória, tempo e rotação, como num poema previamente ensaiado, nos dirão em que lado da face receberemos a bofetada fatal, aquela que reduzirá a nada a poesia, a política e o entendimento antropológico da vida.  À esquerda de nosso rosto perecerá a orquídea, o verso e a álgebra. À direita, as noções sobre Deus, a macroeconomia e a cobiça. - Seguir-se-á  uma longa noite invernal, opaca e silenciosa depois do último gemido. E quiçá, numa manhã inesperada de Abril,  retomaremos a nossa caminhada, mais leves e sem memória.

Sud Express

Embarcámos em Vitória-Gasteiz e não sabíamos nada um do outro. Como sempre, armei-me de silêncio e de um livro para garantir uma viagem tranquila. Por timidez (?) falo cada vez menos com estranhos, mas com ele não foi assim. Com somente seis palavras em castelhano já havíamos percebido que éramos brasileiros. Deixei-lhe que escolhesse a liteira . Ele me disse que qualquer uma estava bem. Instalei-me e já me preparava para continuar com a leitura do livro Os demónios, de Dostoiévsky, quando inesperadamente sem se aperceber que eu tinha o livro nas mãos, ele começou a me contar a sua história utilizando o idioma de Riobaldo. Então parei o que ia fazer e ouvi, com a mesma atenção que pretendia dedicar à história dos revolucionários russos do século XIX, a narração daquele rapaz saído do interior das Minas Gerais para “ganhá mundo” e encontrar um lugar só seu no meio de tanta indelicadeza globalizada. Dizia-me: “Eu nem sabia o que era passaporte. Tinha umas trampa pra ir pros Estado...

Boys don't cry?

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Agora estou em 1982 ou 1983 , na minha casa no Rio de Janeiro. Neste momento me preparo para sair. No rádio ouço esta música e me sinto tão feliz com a possibilidade da noite que engendra silenciosamente o meu futuro. O mundo era outro, eu era outro. Por que é que não há uma máquina para viajar no tempo agora? Assim eu ia direto ao meu encontro para me dizer, de maneira rotunda: " vai, meu amigo, nunca percas a oportunidade de cometer erros. São eles que acabam nos levando para os sítios mais interessantes da condição humana." Eu acho que eu ia gostar de ouvir isto de mim - e com certeza eu ia me convidar para tomar uma cerveja, e depois quem sabe...?

Como se faz um poema?

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Sempre me trataram muito bem os homens que me tiveram. Se algum antagonismo houve, nas minhas histórias passadas, a incompreensão surgiu da minha parte, assim sem querer, involuntária como uma flor do deserto. Sabes o que se passa comigo? Às vezes sou atropelado por um sonho, e é tão forte o choque que me desperta para a realidade. Não é algo de que me faça arrepender da minha maneira de ser. Tampouco seja uma coisa da qual me orgulho. Sei lá, eu queria fazer um poema, e surgiu isso. Como é mesmo que se faz um poema?

15-O Grupo de Migraciones, Pamplona-Iruña

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