Mensagens

Sud Express

Embarcámos em Vitória-Gasteiz e não sabíamos nada um do outro. Como sempre, armei-me de silêncio e de um livro para garantir uma viagem tranquila. Por timidez (?) falo cada vez menos com estranhos, mas com ele não foi assim. Com somente seis palavras em castelhano já havíamos percebido que éramos brasileiros. Deixei-lhe que escolhesse a liteira . Ele me disse que qualquer uma estava bem. Instalei-me e já me preparava para continuar com a leitura do livro Os demónios, de Dostoiévsky, quando inesperadamente sem se aperceber que eu tinha o livro nas mãos, ele começou a me contar a sua história utilizando o idioma de Riobaldo. Então parei o que ia fazer e ouvi, com a mesma atenção que pretendia dedicar à história dos revolucionários russos do século XIX, a narração daquele rapaz saído do interior das Minas Gerais para “ganhá mundo” e encontrar um lugar só seu no meio de tanta indelicadeza globalizada. Dizia-me: “Eu nem sabia o que era passaporte. Tinha umas trampa pra ir pros Estado...

Boys don't cry?

Imagem
Agora estou em 1982 ou 1983 , na minha casa no Rio de Janeiro. Neste momento me preparo para sair. No rádio ouço esta música e me sinto tão feliz com a possibilidade da noite que engendra silenciosamente o meu futuro. O mundo era outro, eu era outro. Por que é que não há uma máquina para viajar no tempo agora? Assim eu ia direto ao meu encontro para me dizer, de maneira rotunda: " vai, meu amigo, nunca percas a oportunidade de cometer erros. São eles que acabam nos levando para os sítios mais interessantes da condição humana." Eu acho que eu ia gostar de ouvir isto de mim - e com certeza eu ia me convidar para tomar uma cerveja, e depois quem sabe...?

Como se faz um poema?

Imagem
Sempre me trataram muito bem os homens que me tiveram. Se algum antagonismo houve, nas minhas histórias passadas, a incompreensão surgiu da minha parte, assim sem querer, involuntária como uma flor do deserto. Sabes o que se passa comigo? Às vezes sou atropelado por um sonho, e é tão forte o choque que me desperta para a realidade. Não é algo de que me faça arrepender da minha maneira de ser. Tampouco seja uma coisa da qual me orgulho. Sei lá, eu queria fazer um poema, e surgiu isso. Como é mesmo que se faz um poema?

15-O Grupo de Migraciones, Pamplona-Iruña

Imagem

Cartografia do outono

Imagem
Essa espécie de semente que decide brotar no outono, eu. Com os olhos mais abertos do que nunca, avalio com meticulosa precisão que a empregada de balcão da pastelaria, o anónimo que me trespassa com o olhar e a vendedora de jornal são os pilares sobre os quais se sustenta toda a arquitetura do mundo, e cartografam para mim, o ponto onde me encontro neste universo a que chamamos de vida.

E esse pouco é tanto!

Imagem
‎"Há-de flutuar uma cidade no crepúsculo da vida" dizia Al Berto. Eu sei tu sabes, o mundo é esta merda que vemos todos os dias no ecrán azul "on-line" que nos entra pela retina adentro. Ao fim e ao cabo, meu amigo, somos nós que teremos de meter as mãos na latrina e tirar de lá a beleza desperdiçada pelo poder. Pouco pode a poesia... E esse pouco é tanto!

Tammuz

Imagem
Os historiadores discutem , ainda hoje, se eram de tijolos ou pedras, as bases que sustentavam os preciosos jardins mandados construir por Nabucodonosor II naquela Babilónia que via, reflectida no Eufrates, o esplendor da sua glória. A pouca documentação existente serve para ocultar a história viva que se faz no silêncio, no dia-a-dia. Nada sabem os historiadores da morte do jovem Binah que não falava o acádio, e era chamado de “o louco” pelos capatazes do rei; à noite, depois dos trabalhos forçados, ele chorava a falta da sua Jerusalém natal. Nada sabem sobre Tammuz, o jardineiro do rei que sonhava, na sua cabeça acordada, com a mescla de cores, formas e aromas das plantas que surpreenderiam não somente a vaidade do rei, mas maravilhariam a posteridade. Alguma coisa sabem do sangue, das guerras de invasão e dos fraticídios. Mas nunca saberão da amizade que existia entre o jardineiro Tammuz e o escravo Binah, e de como a morte deste plantou uma silenciosa pedra no húmido coração do ja...