terça-feira, 31 de janeiro de 2017

Esfinge



Não há perguntas. Selvagem
o silencio cresce, difícil.

                        De “Rosácea”, 1986.


Orides Fontela



Quase dezessete




“Vous êtes amoureux. Loué jusqu’au mois d’août.”

A. Rimbaud


Ali me encontro, aos dezesseis anos, quase dezessete, prisioneiro de uma felicidade aprazada, desafiante, sem saber que a mirada carregada de futuro que captava aquela câmera, chegaria certeira ao presente do meu coração.



sábado, 19 de julho de 2014

Naharros de Valdunciel (Salamanca)



“Este blogue é mais forte do que eu”, talvez assim começasse este texto Clarice Lispector se vivesse, como nós, na era digital. Na verdade nem sei porque ainda mantenho o Finisterra. Talvez por esperança de um dia voltar a ele como fazia nos idos entre 2004 e 2007. Naquela época, este blogue era o porto mais seguro para alguém que vivia à deriva nas emoções de uma vida entre Lisboa e Túnis.

Já tentei recomeçá-lo várias vezes e nunca o consegui de todo. Esta será outra tentativa, um pouco por conselho de amigos e alunos, outro tanto porque será um ano inteiro de uma viagem que se propõe à volta do mundo.

A viagem é sonho do Miguel que decidiu compartilhá-la comigo. Admito publicamente que tenho receio de me afastar tanto tempo de casa. A idade, e não o casamento, foi fazendo de mim o homem caseiro em que me tornei. A minha grande odisseia quotidiana é ir ao café perto da minha casa, ler o jornal e falar com poucos. Eu não era assim, mas me tenho simpatia. E uma viagem longa, como sabemos, permite muitas personagens.

Toda grande viagem começa por dentro, pelo que está mais próximo invisibilizado pelas ferramentas do quotidiano. Ainda antes de sair de Espanha, mas já longe de Pamplona, sinto falta da desordem dos meus livros de cabeceira, do primeiro café tomado no trabalho um pouco antes da chegada dos meus alunos e da insistência dos sinos do convento ao lado… e ainda nem estamos em França.


- é caso para dizer que toda viagem é, em si, um exercício de saudade.

terça-feira, 6 de maio de 2014

O meu primeiro beijo



O meu primeiro beijo foi: com Omar a infância era de ónix, com Felipe foi de brincadeira, com Kátia de verdade, com Paula às amendoeiras em flor, com Débora havia música, com Maria pedi permissão, com Jorge adeus à adolescência, com Cláudio Beirute entrou na minha vida, com Laura foi em sonho, com Gilberto numa discussão sobre Lacan, com Fabiano o intervalo mais lindo, com Fábio à porta do táxi, com Domingos sob os arcos, com João era já outro continente, com Isaiah estação de Stalingrad acesso rue de l'Aqueduc, com Fréd numa sessão de Godard, com Madalena cavalgávamos o Hipogrifo, com Henrique em horas clandestinas, com Paulo suspenso numa aldeia beira-mar, com Pedro no meu quarto medieval, com Ridha ouvia-se o rumor da rue de Palestine, com Mohamed os deslizes da língua, com Ibrahim sob as estrelas, com Manel era o azul de Lisboa, com João Paulo de manhã na pastelaria e com Miguel é todos os dias.



segunda-feira, 31 de março de 2014

Baruch de Espinoza



“Depois da excomunhão, Baruch de Espinoza encontrou trabalho polindo lentes para lunetas e microscópios, e dizem que ganhou grande reputação neste ofício...”

Era moreno entre brancos, e sendo judeu era quase gentio entre os seus. Os pais tinham nascido em Portugal mas ele não, ele pertencia à cidade dos canais, à água e ao porto que lhe abria ao mundo. Nas noites de lua cheia, eu que nunca estive em Amsterdão, sou capaz de perceber os passos tranquilos de Baruch pela Visserplein fazendo ecoar, na sua voz mas íntima, a frase “Se eles não entendem nada, paciência.”

Há tardes, quando o rio Arga subitamente muda a sua cor, me surpreendo a pensar nas obstinadas mãos de Espinoza, que mergulhadas no seu ofício de iluminar o opaco, vão aos poucos abrindo caminho para si próprio buscando, ou tecendo, uma imagem mais coerente da realidade.

Uma vez vi, publicada num jornal português, uma fotografia das mãos do meu amigo Victor Hugo em acção no seu ofício. Como era Lisboa, e o sol explodia lá fora, pensei: “Se Baruch fosse vivo, trabalharia em algo tão nobre como salvar a cópia de um filme da corrupção provocada pelo tempo.”

Este meu querido amigo decidiu, e este verbo poucos podem usar, deixar o trabalho que tanto gosta, a cidade que tanto ama para, obstinadamente, seguir adiante. Queria estar com ele agora, dar-lhe um abraço e sair, embriagados, pelas ruas de Lisboa gritando “Adeus, Lisboa... que te vamos levar para outros sítios.”